O documentário “Axé: Canto do Povo de um Lugar” (2016), disponível na Netflix (desde 12/08/2020), é uma interessante retrospectiva da MPB – Música Prapular da Bahia, e suscita vários enfoques e análises do rico fenômeno musical-cultural baiano, sua força e carisma, e tudo que se derivou a partir da veia rítmica, criativa, destes artistas populares.

Tomando como gênese os anos 1980 e o advento do ritmo “fricote”, a primeira parte do filme-documentário provoca a memória afetiva das gerações que vivenciaram o divertido momento, ao tempo em que o filme foca na narrativa musical. Faz um retrospecto da música de carnaval dos anos 1970, a evolução tecnológica e de qualidade sonora dos trios elétricos, a introdução da música cantada no Trio, por Moraes Moreira, que possibilitou o surgimento de marcantes bandas com seus cantores e cantoras que balançaram o chão da praça.

Quando se discorre sobre música baiana, são múltiplos os aspectos, o que engloba também a música afro-baiana dos blocos negros e afoxés. E ela está presente sim, muito bem representada, neste documentário. O fenômeno da explosão musical soteropolitana, principalmente no período do verão e carnaval de Salvador, possibilitou a criação de um movimento cultural de afirmação da identidade negra, que teve como espaço geográfico de manifestação o Centro Histórico da Cidade e seu rico patrimônio.

Esse movimento musical que depois receberá o nome de “Axé Music”, vai ser lucrativamente incorporado à indústria cultural emergente na Bahia, através da rentável indústria fonográfica, rádios locais, shows musicais e o próspero carnaval das organizações carnavalescas. Neste período fundam-se inúmeras e lucrativas agremiações momescas.

As rádios da Bahia e a indústria fonográfica investiram nos novos ritmos musicais que surgiam, e logo se tornaram sucesso e modismo internacional. O desenvolvimento da indústria cultural, isto é, a mercantilização da cultura, da qual a Cidade do Salvador é um expoente, incorpora diretamente elementos simbólicos na sua cadeia de valor, e essa dinâmica se manifesta claramente com o chamado turismo cultural. A globalização alargou consideravelmente o âmbito das formas culturais onde a produção passa a ser destinada a mercados planetários.

O localismo é globalizado pela indústria do turismo e por espetáculos artísticos, amplamente divulgados através do rádio, televisão e circuitos musicais. Uma nova escala de difusão alimenta a indústria do entretenimento e lazer.

O incentivo ao turismo promove o consumo do exótico, e as novas condições do mercado potenciou a exploração econômica e simbólica de territórios, grupos e práticas tornados bens culturais. Dessa maneira o Estado da Bahia e a sua capital, Salvador, se integraram ao grande mercado global através da indústria do entretenimento e lazer.

Todavia, a indústria cultural que gera riqueza econômica, de fato é, para a cultura baiana, um “rei Midas” ao contrário: tudo que toca vulgariza, banaliza, mediocriza.

A indústria do carnaval foi tomada de assalto por empresários predadores que atraíram os brancos ricos para a folia. Estes se apropriaram do asfalto quente da avenida, e passaram a desfilar nos “blocos de corda” — navios negreiros modernos, “remados” pelos negros “cordeiros” que os guarneciam e protegiam.

Esse carnaval segregado gerou um apartheid social escancarado durante os dias de folia e a festiva música popular baiana também se mediocrizou, banalizou e mediocrizou.

Há exceções? Evidente que sim. E muitas, com direito a brado de afirmação étnica: “eu sou negão, meu coração é a liberdade”.

Assim, na segunda parte do filme-documentário, aparece a narrativa dos empresários de trio, e o filme perde o encantamento conquistado lá no início. Se discorre então sobre a crise da Axé Music. Essa suposta crise de um movimento musical não abalou em nada a lucrativa indústria do carnaval da Bahia.

Ao término do documentário, há a tentativa de uma reflexão sociológica sobre o destino da “axé music”, porém tímida e não fundamentada.

A força da cultura musical baiana prevalecerá, não resta dúvida. O que se faz necessário é que manifestações culturais e musicais não sejam reduzidas a um negócio lucrativo para alguns, para poucos, e sim que se afirme como identidade cultural regional: soteropolitana, reconcavense, baiana.

Viva a Bahia-iaiá!


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